Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Jazz fascinante, apontando ao futuro (1)

 

 

Em meio de uma crescente tendência para que os festivais de jazz comecem entre nós a caracterizar-se por linhas programáticas bem definidas, parece fora de dúvida que, na sua presente edição  [1998],  o Seixal Jazz terá aprofundado uma vocação, porventura já latente, para a transversalidade entre as diversas propostas estéticas que hoje coabitam nas cenas do jazz.

 

É essa coexistência entre os vários criadores musicais «pacífica»?  Ou será que as pretensas rivalidades entre as correntes do jazz actual são, afinal, muito mais objecto das cogitações alimentadas por nós, escribas, sempre em bicos dos pés, na busca da contradição e do conflito onde há frutificante confronto de experiências?

 

Das três propostas musicais que hoje me couberam em sorte analisar, arrumemos, primeiro, um caso de abordagem relativamente penosa:  o da promissora presença do quarteto de Lee Konitz-Martial Solal, na quinta-feira passada  [28.10.99].  Para além das insuficiências físicas que adivinhei em Konitz (perante o qual continuarei eternamente a curvar-me)  ou da sobrevalorização dos preciosismos técnicos que sempre me arrefeceram entusiasmos em relação a Solal, apetece encontrar já um bode expiatório para justificar o relativo fracasso, pelo menos do primeiro set a que tive a oportunidade de assistir.

 

 

 

 

O facto é que a imprevista e forçada substituição, no contrabaixo, do anunciado e talentoso Marc Johnson por um músico de segunda ordem, não só desmotivou, a meu ver, a habitual e precisa propulsão de Billy Drummond, na bateria, como terá desarticulado a própria homogeneidade do grupo.  E não foram as brilhantes paráfrases temáticas de All The Things You Are ou What is This Thing Called Love que salvaram a honra do convento.

 

Sobram, a emoldurar este concerto, as actuações dos grupos de Dave Holland e de Myra Melford, na véspera e no dia seguinte.  E se, em ambos os casos, estivemos perante música de primeira água, o que de mais importante se passou em cima do palco foi a desmistificação prática que ambos fizeram de dois equívocos de ordem crítica e teórica que vêm caminhando lado a lado:  a pretensa legitimação do revivalismo free-jazz, por completo desfasado face à realidade concreta e envolvente neste final dos anos 90, como ilusória oposição a essa outra aberração estética que vinha sendo, nos anos 80, o dominante revivalismo bebop.

 

 

 

 

Atribuir, por exemplo, a Dave Holland e seus companheiros qualquer suspeita de envolvimento, cumplicidade ou sequer aproximação a esta última tendência  (mesmo concedendo-lhe situar-se numa linha mais avançada),  seria erro crasso que a carreira do grande contrabaixista sempre tem, aliás, desmentido.  A habitual sabedoria de Holland na escolha dos seus pares  – aqui com a manutenção do fogoso e arrebatador Billy Kilson na bateria e a simples substituição de Steve Wilson pelo altamente criativo e estimulante Chris Potter nos saxofones –  veio permitir ao seu quinteto novas e excitantes condições de inovação:  uma muito maior força nas controladas aventuras do seu jazz, o retorno do imenso gozo da improvisação colectiva e, até, o renascer da força e capacidade expressiva do vibrafone de Steve Nelson.

 

 

 

 

Quanto ao concerto de Myra Melford, julgo poder afirmar que ele terá constituído a mais recompensadora de todas as experiências musicais até agora vividas no Seixal. Jamais rejeitando a evocação dos sinais do free-jazz ou as influências pessoais, na composição e prática instrumental, de Don Pullen ou Cecil Taylor, Myra há muito deu em definitivo o salto em frente e, permanecendo intrinsecamente revolucionária, já nada tem que ver com esses mestres nem com o jazz de há duas décadas e meia.

 

Conjugando de forma admirável e criativa um altíssimo rigor da escrita e planificação composicional  (sempre presente!)  com o arrojo e a aventura aleatória da interactiva improvisação individual e colectiva ou contrapondo aos  (sempre renovados)  rigores formais a quase simultânea destruição da própria forma ou de qualquer centrismo tonal  –  Myra Melford tem no suporte imprescindível de um superior Mark Feldman (violoncelo),  na invenção impetuosa de Chris Speed (saxofones, clarinete)  ou nessa revitalização moderna e aparentemente destrambelhada do «jazzbandista» Michael Sarin (bateria),  a razão de ser de um jazz fascinante que, no presente, aponta para o futuro.

_______________________________

 

(1) (in Diário de Notícias de 31.10.99)

 

Nota:  a exemplo de outros textos aqui  (irregularmente)  recordados em posts anteriores ou futuros, o presente artigo mantém-se 100% fiel e reproduz inteiramente aquele que foi publicado na data indicada, apenas tendo sido inseridas aqui e ali ligeiras emendas de pontuação e uma ou outra palavra destinada a eliminar repetições ou insuficientes formulações, sempre possíveis de acontecer quando se escreve em cima do acontecimento para imediata publicação em jornal.

 

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 18:13
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